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29 de mai de 2016

Resenha - Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex


O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória. Prefácio, Eliane Brum

Você sabia que no Brasil também existiu um holocausto? Quase exatamente igual ao holocausto judeu, exceto por um detalhe mínimo. Aqui, em Minas Gerais, mais precisamente Barbacena, no século XX, mais de 60 mil pessoas morreram. Só que essas pessoas não eram judias: eram esquizofrênicas, epiléticas, homossexuais, garotas que haviam perdido a virgindade antes do casamento, meninas que haviam pedido ao pai uma distribuição justa da renda, os desafetos, etc. Muito mais do que isso: o Colônia, como era chamado o maior manicômio do Brasil, era um depósito de lixo humano, sendo a maioria de seus internos, pessoas pobres e sem condição nenhuma de se tornarem produtivas na sociedade.


Agora que eu já fiz uma apresentação básica do que foi o hospital de Barbacena, devo admitir que, como brasileira e mineira, eu não conhecia essa história. Apaixonada por ficção, tudo que eu desejava enquanto lia esse livro-reportagem escrito pela juizforense Daniela Arbex, formada em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 95, era que tudo não passasse de ficção. Mas não é ficção, infelizmente. Na medida em que eu passava as páginas, meus olhos se enchiam de lágrimas e eu me perguntava como foi possível que tamanha crueldade estivesse acontecendo dentro daqueles muros do Colônia e o Estado continuasse inerte em relação à qualquer proposta de mudança. O psiquiatra Ronaldo Simões Coelho foi uma das primeiras pessoas a denunciar o Colônia, mas, ao fazê-lo, acabou perdendo o emprego na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).

Para você que ainda não sabe, vamos começar primeiro com a maneira como os internos eram tratados - destratados fica melhor - (caso ainda não tenha lido o livro, aconselho arrumar um pdf pra ter uma visão mais aprofundada sobre esse massacre ). Bem resumidamente, as pessoas dormiam em capins que eram empilhados nos corredores, andavam nuas no frio cortante de Barbacena, bebiam água diretamente de um esgoto que cortava o pavilhão do hospital, se alimentavam de forma precária e desumana (tanto que em uma parte do livro, um dos visitantes pergunta à um cozinheiro do hospital se eles criavam porcos ali, ao ver como a "comida" era preparada. O visitante era o formando em Medicina na época, Francisco Paes Barreto, que também se rebelou contra a desumanidade de Barbacena). Não posso deixar de citar os abusos físicos e psicológicos que eram investidos nos internos como forma de castigo. Por último, a lobotomia e os eletrochoques. No livro, inclusive, são narrados episódios onde pacientes morriam de parada cardíaca ao receberem eletrochoques, sendo estes, aplicados deliberadamente.


Nesse livro da Daniela, ela relata o descaso humano que acontecia em Barbacena com relatos de alguns dos sobreviventes do hospital, além de psiquiatras, jornalistas e ex-funcionários que testemunharam a rotina do que foi o maior depósito dos indesejados sociais aqui no Brasil. Com uma escrita fácil de entender, e muitas vezes tocante, a jornalista desmiúça a história do manicômio de Barbacena que tirou a identidade, a dignidade e a vida de inúmeras pessoas.

 Pra vocês terem uma ideia, eu acredito que demoraria um tempo bem grande pra realmente ler esse material se não fosse a faculdade. Em uma palestra e, posteriormente, em sugestões de livros-reportagem para um trabalho que nós vamos fazer, esse livro entrou em pauta. Mas foi na palestra que tive o primeiro contato com essa história. Lá, conheci o Iago Rezende e o Fred Furtado, dois palestrantes que nos apresentaram o projeto Loucos são: direito de voz. Maravilhoso!

Abaixo, o documentário do cineasta Helvecio Ratton sobre o Hospital Colônia de Barbacena. Obs.: ele optou por não colocar trilha sonora, mas deixar os sons do ambiente. 

(Agora que eu já cumpri essa obrigação de apresentar um pouco o livro para os que ainda não o conhecem, posso ler o Um beijo de morte). Beijos!

LEIAM O LIVRO



Minha avaliação (numa escala de 1 até 5 estrelas)

26 de mai de 2016

Resenha - Um toque de morte (A ORDEM), Luiza Salazar

Hoje eu trouxe pra vocês um livro que recebi na parceria com a editora Draco. Eu comecei a ler há uns 3 dias, mas como estava muito apurada com coisas da faculdade, não pude terminar no mesmo dia (mas teria terminado, se pudesse). O suspense desse livro e o universo que a Luiza criou é tão maravilhoso que eu não conseguia tirar os meus pensamentos acerca do que viria nos próximos capítulos. Finalizada a leitura, não pude deixar de ficar desesperada pela continuação: Um beijo de morte.


Título: Um toque de morte
Autora:  Luiza Salazar
Editora: Draco
Páginas: 224
Ano: 2013

A personagem principal de Um toque de Morte é a Katherine Brown. Ela é uma adolescente de dezessete anos que passou a maior parte da vida em um orfanato. Aos cinco anos de idade, Kat descobriu que tinha um dom (ou seria uma maldição?): tudo que ela tocava morria. Com uma certa idade, depois de um episódio ocorrido no orfanato, ela decidiu fugir. Passou, então, a morar com sua amiga Rebecca. E é muito estranho tentar imaginar a vida de Katherine e Rebecca sem ao menos um abraço. Duas amigas que se veem todos os dias e convivem juntas não poderem tocar uma na outra. Mas o problema é que Rebecca não sabe sobre esse poder de Kat.

Quando se mente por tanto tempo como eu, é terrivelmente exaustivo ter que se esconder o tempo todo.

Como todo mundo tem contas a pagar e precisa de dinheiro, Katherine, aos 14 anos, começou a trabalhar como "assassina de aluguel" para um homem, o Chefe. Os trabalhos são bem simples: matar. O chefe passa as instruções sobre o que ela deve fazer, com quem deve fazer, o local, etc, e ela, quase todas as vezes sem hesitar, coloca as mãos na massa. E foi assim que Kat achou que sua vida se resumia: sendo uma Ceifadora, uma pessoa que mata outras pessoas, e que ainda ganha dinheiro ao fazer isso.

Quando seu passado não envolve parentes ou amigos, você é meio que obrigado a se apegar a objetos inanimados. É deprimente, mas verdadeiro.

Mas um dia, na escola, ela encontra Vince e Eric, dois rapazes que aparentemente se odeiam. Eles têm olhos roxos que assumem uma coloração de fogo quando olham um para o outro, com ódio e fúria. A cor dos olhos significa uma coisa: eles têm poderes especiais, assim como Kat. Na medida em que vamos acompanhando a história, descobrimos quais são suas habilidades e suas motivações para com Katherine, que passa a ser disputada por eles.

Mas essa disputa não é sobre amor. É algo que está para muito além disso, que envolve duas forças contrárias. Kat é valiosa demais para eles e ela precisa escolher um lado. À partir daí, somos apresentados a novos personagens: Roxie, Valentina, Vladimir, etc, que também são especiais, e passamos a perceber uma evolução da personagem principal acerca de sua habilidade.

A escrita da Luiza é muito fluida e fácil. Eu não precisei consultar o dicionário uma vez sequer, o que facilitou muito a leitura. E é gostoso de ler porque o mistério e o suspense vão assumindo um ar cada vez maior, impossibilitando, por exemplo, que o livro seja largado ao meio. É uma sentada e acabou. Sobre a personagem principal não tenho nada a reclamar. Ela é um pouco irônica, às vezes, mas também é dotada de um carisma muito grande. Ela não gosta de ser diferente das demais pessoas, mas também não gostaria de levar a vida banal que todos levam (só as vezes ela deseja isso): 

É engraçado como em filmes onde as pessoas têm poderes elas dizem "eu só queria ser normal". E eu sempre pensei, por quêPor que alguém iria querer fazer isso? Por que alguém ia querer ser medíocre, trabalhar em um emprego medíocre, aguentar as luzes falsas de escritórios todos os dias, as festas com os vizinhos que você não suporta e os amigos que mal suportam você? Essa ideia sempre me assustou mais do que a morte. A morte eu consigo aceitar.              
          É a vida morta que me assusta.


Minha avaliação (numa escala de 1 até 5 estrelas)

11 de abr de 2016

Resenha - Eu Te Darei o Sol, Jandy Nelson


Título: Eu te darei o sol
Título Original: I'll Give You The Sun
Autor(a):  Jandy Nelson
Editora: Novo Conceito
Páginas: 384
Ano: 2015
Sinopse: Noah e Jude competem pela afeição dos pais, pela atenção do garoto que acabou de se mudar para o bairro e por uma vaga na melhor escola de arte da Califórnia.
Mal-entendidos, ciúmes e uma perda trágica os separaram definitivamente. Trilhando caminhos distintos e vivendo no mesmo espaço, ambos lutam contra dilemas que não têm coragem de revelar a ninguém.
Contado em perspectivas e tempos diferentes, “Eu te darei o sol” é o livro mais desconcertante de Jandy Nelson. As pessoas mais próximas de nós são as que mais têm o poder de nos machucar.


Eu te darei o sol é um daqueles livros que você lê e permanece em sua mente por anos a fio. O livro conta a história dos gêmeos Noah e Jude, que competem pela atenção dos pais. Noah é reservado e deseja ser um revolucionário. Já Jude tem vários amigos e se sente mais próxima do pai . Apesar das desavenças entre os irmãos eles nunca deixaram de lado a amizade,pelo menos até aos quatorze anos.
                       
"Você tem que ver milagres para que haja milagres"

O mais interessante do livro é que ele é narrado em épocas diferentes. A narrativa de Noah foca no passado quando os gêmeos tinham doze a quatorze anos, já a narrativa de Jude é no presente , quando os irmãos tem dezesseis anos. E isso faz com que a cada página você fique mais e mais curioso. Afinal, por que os irmãos que antes se davam tão bem deixam de conversar?
É difícil escrever sobre esse livro, pois ele é tão rico que qualquer falha minha ficaria sem sentido. É difícil descrever o quanto esse livro significou para mim. É difícil aceitar que ele acabou. Eu só sinto gratidão por ter tido a oportunidade de ler uma obra tão incrível.


"Porque, por mais piegas que pareça, quero ser uma pirâmide humana que tenta levar alegria ao mundo, não uma que tira felicidade do mundo."


Resultado de imagem para Jandy NelsonJandy Nelson mora em São Francisco, e lá, assim como Lennie, divide seu tempo entre cuidar das árvores e correr livremente pelo parque. Jandy é uma agente literária, poetisa com livros publicados, e acadêmica eterna. Formada pelas universidades de Brown, Cornell e Vermont. É uma pessoa supersticiosa e uma romântica dedicada, loucamente apaixonada pela Califórina, e pela forma como esse estado continua firme na ponta de um continente. 



Minha nota (em uma escala de 1 até 5 estrelas)



30 de dez de 2015

Resenha - Uma Longa Jornada, Nicholas Sparks




Título: Uma Longa Jornada
Título Original: The Longest Ride
Autora:  Nicholas Sparks
Editora: Arqueiro
Páginas: 288
Ano: 2013
Edição: ECONÔMICA


Sinopse: Aos 91 anos, com problemas de saúde e sozinho no mundo, Ira Levinson sofre um terrível acidente de carro. Enquanto luta para se manter consciente, a imagem de Ruth, sua amada esposa que morreu há nove anos, surge diante dele.
Mesmo sabendo que é impossível que ela esteja ali, Ira se agarra a isso e relembra diversos momentos de sua longa vida em comum: o dia em que se conheceram, o casamento, o amor dela pela arte, os dias sombrios da Segunda Guerra Mundial e seus efeitos sobre eles e suas famílias. 

Perto dali, Sophia Danko, uma jovem estudante de história da arte, acompanha a melhor amiga a um rodeio. Lá, é assediada pelo ex-namorado e acaba sendo salva por Luke Collins, o caubói que acabou de vencer a competição.

Ele e Sophia começam a conversar e logo percebem como é fácil estarem juntos. Luke é completamente diferente dos rapazes privilegiados da faculdade. 

Ele não mede esforços para ajudar a mãe e salvar a fazenda da família. Aos poucos, Sophia começa a descobrir um novo mundo e percebe que Luke talvez tenha o poder de reescrever o futuro que ela havia planejado. Isso se o terrível segredo que ele guarda não puser tudo a perder.





Uma Longa Jornada conta duas histórias de amor intercaladamente: a do senhor Ira, que tem 91 anos, e a do casal Luke e Sophia. Começa com Ira sofrendo um acidente de carro durante uma nevasca na Carolina da Norte e tendo alucinações com a amada esposa Ruth, que morrera há nove anos. Toda a parte de Ira é contada em primeira pessoa, uma jogada de mestre do Nicholas para garantir a verossimilhança da obra, tendo em vista que as miragens que o personagem estava tendo com a esposa faziam parte exclusivamente da mente dele.

Em seguida, conhecemos Sophia, uma garota de 22 anos estudante de história da arte na Wake Forest prestes a se formar. Marcia, a colega de quarto e melhor amiga de Sophia, a convence em ir à um rodeio em uma cidade vizinha. Chegando lá, o ex de Sophia, Brian, um rapaz alto e repugnante, a assedia, quando então é salva pelo peão de touros Luke Collins, um homem charmoso, carinhoso e inteligente. A partir daí, eles começam a construir um romance.

As partes de Sophia e Luke são contadas sob o olhar de um narrador observador, ou seja, em terceira pessoa. No livro, há momentos que me deixaram bastante chorosa, como quando Ira começa a falar da Segunda Guerra, quando se alistou para as forças aéreas dos Estados Unidos, ou quando ele fala sobre Daniel McCallum, um ex-aluno de Ruth. 

Há ainda uma conexão entre essas duas histórias, como que fosse o destino. Mas como eu não acredito em destino, vou ficar com o acaso mesmo. É até interessante eu dizer que já sabia como essa conexão iria ser feita, e imagino que algumas pessoas que já leram também sabiam.  Quando o livro começa, já está na parte de Ira, que é o presente. Logo acima do nome, está a data: início de fevereiro, 2011. Já quando entra o capítulo de Sophia, que vem logo em seguida, consta uma data quatro meses antes. 

Muitas pessoas disseram se tratar de um cliché. É um cliché o garoto da fazenda ter um romance com a universitária de Nova Jersey. As duas histórias de amor - uma recordando, e outra em construção - parecem passar longe do que vivemos na realidade. Mas são livros. Ficção. Por que as pessoas não entendem isso? E nem por isso o romance desses personagens não poderia ser real. Eu aposto que existem vários Iras e Ruths, Lukes e Sophias. Pessoas que enfrentam as dificuldades que qualquer relacionamento pode resultar, mas que mesmo assim tentam fazer as coisas darem certo. Quando eu li, confesso que me peguei imaginando ter um relacionamento duradouro e feliz como o de Ira e Ruth. 

"[...] nós partilhamos a mais longa jornada, essa coisa chamada vida. E a minha foi cheia de alegria por sua causa."

"Gostaria de ter talento para pintar o que sinto por você, porque minhas palavras sempre parecem inadequadas. Imagino usar vermelho para sua paixão e azul-claro para sua bondade; verde-floresta para refletir a profundidade de nossa empatia e amarelo vivo para nosso persistente otimismo. E ainda me pergunto: a paleta de um artista pode captar tudo que você significa para mim?" 

Eu amei esse livro. Admito ter ficado receosa no começo, mas depois a leitura foi se tornando cada vez mais fluida e, apesar de um pouco previsível, teve um final emocionante. Se eu tivesse que avaliar esse livro numa escala de 1 a 5? Nota 5.

O livro teve uma adaptação para o cinema esse ano. Infelizmente, diferente do livro, o longa foi muito mal aclamado pela crítica, que considerou a atuação dos atores extremamente robótica e limitada, com diálogos engraçados de tão debilóides, e o roteiro construído a partir do encontro entre Luke e Sophia com Ira.. ou seja,  o inverso do livro. Então, cuidado, não percam o tempo com o filme. Acho que só vou assistir pra rir um pouco porque estou precisando.






Nicholas Sparks é um escritor, roteirista e produtor estadunidense. Escreveu, entre outros livros, A Última Música, Noites de Tormenta e Diário de Uma Paixão. Foi indicado ao prêmio Goodreads Choice Awards de melhor romance com o livro da resenha acima e o Um porto Seguro.




              
                                   
                                   Minha avaliação (numa escala de 1 até 5 estrelas)

18 de dez de 2015

Resenha - Sob o céu de Cabul, Andrea Busfield




Título: Sob o céu de Cabul
Título Original: Born under a million shadows
Autora:  Andrea Busfield
Editora: Agir
Páginas: 320
Ano: 2014





Sinopse: O Talibã se retirou das ruas de Cabul, mas as sombras de seu regime permaneceram. Fawad, um menino afegão esperto, charmoso e observador, conheceu a tragédia como ninguém: seu pai e irmão foram mortos e sua irmã foi seqüestrada. Sempre otimista, Fawad espera por uma vida melhor e seu sonho se realiza quando sua mãe, Mariya, consegue um emprego como governanta de Georgie, uma carismática mulher ocidental, e seus dois amigos estrangeiros. Viver com o trio traz uma série de novidades, algumas assombrosas – dentre elas, a relação de Georgie com o poderoso guerrilheiro afegão Haji Khan, que faz com que esse homem terrível seja capaz de realizar surpreendentes atos de bondade. Mas a vida, especialmente em Cabul, sempre tem seus perigos e a próxima calamidade que Fawad deverá enfrentar ameaça destruir a única coisa que ele jamais pensava que poderia perder: o amor por seu país.




É inegável o quanto eu seja fã da cultura oriental, especialmente da que compreende toda a região do Afeganistão, da Índia e do Paquistão. E como leitora dos livros de Khaled Hosseini, que traz em suas histórias as marcas da guerra no Afeganistão, eu não poderia deixar de ler esse romance da jornalista Andrea Busfield.

Sob o céu de Cabul narra, sob o olhar de uma criança afegã de 11 anos, Fawad, as belezas, as desventuras, as perdas e a bondade, não só do povo afegão como também dos estrangeiros que se instalaram naquele país após a queda do Talibã. Por ter sido ambientado nesse país em um período um tanto turbulento, de insurgência dos combatentes do Talibã, imaginei que, como Khaled Hosseini em seus livros, as desgraças que acometeriam os personagens estariam presentes do início ao fim. Mas não foi exatamente assim. Andrea soube como transformar a vida do pequeno Fawad, tão triste e tão miserável num primeiro momento, em uma mensagem de amor e de esperança. O personagem Fawad é a própria personificação da esperança.

Fawad, mesmo sendo apenas um garotinho, já sofreu perdas terríveis. Primeiro, o pai, que se juntou à Aliança do Norte para lutar contra o Talibã. Um tempo mais tarde, os talibãs vieram à pequena casa onde Fawad morava com a mãe, Mariya, e com outros irmãos, e sequestrou a sua irmã, Mina. Anos mais tarde, jurando vingança e para recuperar a honra da família, o filho mais velho uniu-se às forças da Aliança do Norte. Infelizmente, ele não pôde voltar para casa.

Mariya e Fawad moravam em um pequeno cômodo na casa da irmã de Maryia. Não bastasse as guerras, ainda tinham que conviver sob a ameaça da fome, da miséria e dos surtos de cólera. Enquanto Mariya trabalhava como empregada doméstica, Fawad dirigia-se às ruas para roubar os transeuntes com seus amigos. Até que um dia eles são convidados a morar na casa da bem-sucedida tosadora de cabras da caxemira, Georgie, uma inglesa muito simpática que vai ganhando o amor de Fawad. A casa fica num dos bairros mais nobres de Cabul, o Wazir Akbar KhanLá, Mariya trabalharia como governanta. Na nova casa também moram outros dois estrangeiros, pessoas super gentis: o jornalista alcoólatra James, e a engenheira peituda e lésbica, May. Aos poucos, eles todos se tornam uma grande (e feliz) família. 

Georgie está envolvida com um poderoso e caridoso ex-guerrilheiro afegão, Haji Khalid Khan, e que provavelmente está chefiando um império de papoulas, enquanto May namora uma mulher peluda e James, uma mulher linda chamada Rachel, que não quer se casar com ele por ele ser alcoólatra, desastrado, e ter um sobrenome vergonhoso (Allcock). 

Fawad e a mãe estão vivendo uma vida de alto padrão se comparado ao restante das pessoas. Até guardas armados com AK47 eles têm, o que só reforça a questão da insegurança naquele país, obviamente. As ruas estão lotadas de estrangeiros, soldados norte-americanos e os próprios afegãos, além de crianças famintas e desesperadas. Mas isso não é tão reforçado assim no livro.

Enfim, ao fim da leitura, eu sinceramente fiquei imaginando que essa era uma história qualquer. Nem motivos havia visto para que a autora utilizasse o Afeganistão como cenário. A história poderia ter se passado em qualquer outro lugar! Mas não, eu comecei a pensar melhor e cheguei a conclusão de que não poderia haver um outro lugar senão o Afeganistão para ser o ambiente onde a história é contada. É necessário um olhar mais a fundo das personagens para entendermos que elas são marcadas por esse lugar. 

Se você estiver achando que esse é mais um livro dramático, como eu havia presumido, não se engane. Aqui, estamos falando de uma narrativa repleta de infortúnios, mas mesmo assim muito feliz. Recomendo a leitura aos amantes de uma boa história com dose de cultura afegã.


"Se o santo Corão diz que as meninas não devem ir à escola, que mortal poderia questionar a Palavra de Deus? [...]. No entanto, quando um talibã diz a um homem sem escolaridade que tais coisas estão escritas, como esse homem pode argumentar contra tamanho conhecimento e sabedoria, sobretudo se, fazendo isso, estará se postando contra o próprio Deus? Ele é obrigado a aceitar. É por isso que a melhor arma do povo [...], é a educação."


Andrea Busfield é uma jornalista britânica que viajou para o Afeganistão para cobrir a queda do Talibã em 2001 pelo jornal News of the World. Ela agora é escritora em tempo integral e vive na Áustria.










                               Minha avaliação (numa escala que vai de 1 até 5 estrelas):

30 de nov de 2015

Resenha - A última casa da rua

Sinopse: Em busca de uma nova vida, a jovem Elissa e sua mãe encontram a casa dos sonhos em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. A cidade tem um mistério. Um assassinato aconteceu bem na casa ao lado. Uma garota matou os pais de forma brutal e desapareceu. Hoje, quatro anos depois, apenas Ryan, o misterioso irmão mais velho, mora sozinho naquela mesma casa, sombria e esquecida no tempo. Indo contra tudo e contra todos, Elissa acaba se envolvendo amorosamente com o estranho rapaz. O que ela não sabe é o quão perigoso esse jogo pode se tornar...



Título: A última casa da rua
Título Original: House at the end of the street
Autores: Lily Blake, Jonathan Mostow, David Loucka
Editora: iD
Páginas: 182
Ano: 2012

A última casa da rua é um livro baseado no filme de mesmo nome estrelado por Jennifer Lawrence e Max Theieriot. Uma sentada é o suficiente para ler tudo. Enfim, deixarei de rodeios e expressarei minhas impressões sobre esse romance dramático.

A narrativa começa com um acidente trágico, ou melhor, uma sucessão de acidentes trágicos que acometem uma família em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Quando Carrie Anne, uma menininha de cinco anos, cai de um balanço de uma altura considerável, o impacto é tão grande que deixa nela danos irreversíveis. Depois de alguns anos, quando ela já é uma adolescente, desprende-se das amarras que a mantinham presa no quarto - com o impacto e o dano cerebral, ela se tornou muito violenta - e mata brutalmente os próprios pais.

Quatro anos se passaram e a adolescente Elissa e a mãe dela estão de mudança para essa mesma cidade na tentativa de recomeçarem. Depois do distanciamento do pai de Elissa, as coisas entre mãe e filha ficaram diferentes, e a relação entre elas era como a de duas colegas de quarto, totalmente alheias uma da outra.

Mas quando elas se fixam em uma mini mansão, não demoram a descobrir que moram ao lado da mesma casa onde a garota matou os pais, a não ser por um parque que as separa. E o pior, o órfão irmão da garota está morando lá, o que todos acham absurdamente estranho.

Na nova escola, Elissa é apresentada por sua mais nova amiga, Jillian, à dois garotos que planejam montar uma banda. Elissa não dispensa o convite e logo se junta a eles, cantando da mesma forma que cantava com o pai quando ele ainda era um membro da família, por assim dizer.

A mãe de Elissa, Sarah, também está se adaptando à nova vida. Conseguiu arrumar um emprego como técnica em radiologia em um hospital nas proximidades, mas acaba pegando muitos turnos à noite. Isso irrita Elissa, que fica refletindo em como a mudança poderia lhes trazer de fato alguma mudança se a relação entre as duas continuava do mesmo jeito.

O órfão, Ryan Jacobsen, é um garoto enigmático e com certeza estranho demais, mas também bastante charmoso. O pessoal da cidade detesta ele, tanto que vivem depredando a casa onde ele mora e que foi palco de horrores, já que a casa  reduziu o preço dos imóveis da região.

A relação entre Elissa e Ryan fica cada vez mais confusa, mas Elissa está perto demais para enxergar a verdade sobre ele. E não é mentira quando dizem que as pessoas só vêem o que elas querem. Era isso que Elissa via em Ryan: uma pessoa jovem, porém muito sofrida, mas totalmente inofensiva.

O tempo da narrativa é cronológico e retilíneo. Já o foco narrativo utilizado pelos autores é em terceira pessoa, ou seja, narrador-observador. A estratégia de usar um narrador-observador garante todo o suspense da obra.

Cena do filme A última casa da rua, protagonizado pela queridinha de Hollywood, Jennifer Lawrence, e o gatíssimo ̶D̶y̶l̶a̶n̶,̶ ̶d̶e̶ ̶B̶a̶t̶e̶s̶ ̶M̶o̶t̶e̶l̶  Max Thieriot.


Minha avaliação (numa escala de 1 até 5 estrelas)

                     

18 de nov de 2015

Resenha - Ninguém como você, Lauren Strasnick

Sinopse: A vida de Holly está muito complicada - Faz seis meses que sua mãe morreu, e seu pai ainda anda pela casa com um ar muito perdido. Ela acaba de perder a virgindade com Paul, um cara que é um gato, mas que tem uma namorada firme, que faz parte da turma mais popular da escola. Seu melhor amigo Nils deu de pular de galho em galho, correndo atrás de toda garota que passa em sua frente. Quando as coisas começam a ficar mais sérias, Holly terá de escolher - mudar de vida radicalmente, ou guardar um segredo que pesa cada vez mais em sua vida?



Título: Ninguém como você
Título Original: Nothing like you
Autor: Lauren Strasnick
Editora: iD
Páginas: 235
Ano: 2010

Ninguém como você é um livro para ser lido no mesmo dia. A narrativa conta a história de Holly, uma garota do último ano do ensino médio que perdeu a mãe para o câncer na primavera passada. Ela e o melhor amigo, o Nills, têm uma amizade forte que dura há mais de seis anos. Eles dividem um barracão onde se encontram depois da escola para ler, estudar, conversar e ouvir músicas dos álbuns da falecida mãe de Holly (músicas do Neil Diamond e Kansas, entre outras).

O livro inicia com a Holly perdendo a virgindade com o Paul, um garoto bonito, charmoso e que já tinha namorada. Depois da primeira transa, Paul começa a frequentar a casa de Holly duas ou três vezes por semana. Eles sempre ficam nesses encontros.

O livro é um típico cliché. Holly, a garota que é sempre a segunda opção de Paul, insiste em manter os encontros na alegação de que está apaixonada por ele. E ele declara sempre o quanto ela é especial e como as coisas com ela são mais fáceis do que com a Saskia, a namorada-em-público de Paul, popular, linda e magra.

A situação começa a ficar preocupante quando Holls se aproxima de Saskia, tentando construir com ela uma amizade. Aí, ela vê o quanto os estereótipos que tinha da menina não passavam mesmo de estereótipos, pois ela provou ser uma pessoa muito carinhosa, atenciosa e bondosa. Assim, ela afirma que se fosse para escolher entre Paul e Saskia, sem dúvidas preferiria a Saskia, porque ganharia uma grande amiga.

Mas quando Holly se aproxima de Paul e diz para ele que não quer mais nada daquilo, ele ameaça contar para Saskia. Holly se apavora; ele dá um prazo de uma semana para ela decidir se mantinha ou não o relacionamento deles às escondidas. Se ela desse um fora definitivo, ele contaria para a namorada.

As coisas começam a esquentar mais ainda quando Holly beija o melhor amigo Nills, revelando sentir por ele uma atração muito grande. Enquanto isso, ela continua mantendo o segredo que tinha com Paul, o que deixa o Nills curioso.

Daqui pra lá não posso mais dizer, ou vou acabar soltando spoiler. Enfim, se você pegar Ninguém como você imaginando que vai ler um romance épico, por favor, desista o quanto antes, porque está muito, muito longe de ser isso. Mas não é uma história de toda ruim. Se você estiver no vagão do trem, no ônibus, na escola/faculdade, vale a pena levar o livro pra passar o tempo. A escritora escreve bonitinho, típica linguagem adolescente, bem fácil. A história está em 1ª pessoa e o tempo é predominantemente retilíneo.

Não quero nem falar da diagramação e dessa capa fofíssima, que confesso, foi o que me motivou a comprar. 


Google Imagens

Lauren Strasnick se formou no Instituto Californiano de Artes. Ela mora em Los Angeles. Ninguém como você é sua primeira novela para jovens.









                                              

16 de nov de 2015

Resenha - Reconstruindo Amelia, Kimberly McCreight


Sinopse: Você conhece a pessoa que mais ama no mundo? Kate Baron achava que sim até receber a devastadora notícia de que Amelia, sua filha de 15 anos, cometeu suicídio pulando do telhado do colégio particular onde estudava. Poucos dias depois, entretanto, uma mensagem anônima em seu celular revela que a morte de sua filha talvez não tenha sido da maneira que as autoridades alegaram. Amelia pode ter sido assassinada? Como advogada, Kate está determinada a descobrir a verdade e, para isso, mergulha no passado da filha, recolhendo cada fragmento de e-mail, cada linha dos textos do blog, cada atualização de status do Facebook.Sempre um passo atrás da verdade, ela descobre um lado de Amelia que nunca imaginaria que existisse. Este impressionante romance de estreia vai além de uma história sobre segredos e mentiras. Narra a busca de uma mãe tentando reunir cada detalhe possível para reivindicar a memória da filha que não pôde salvar.


Título: Reconstruindo Amelia
Título Original:  Reconstructing Amelia
Autor: Kimberly McCreight
Editora: Arqueiro
Páginas: 351
Ano: 2014

Reconstruindo Amelia é um livro de investigação policial que mistura drama e romance. Se antes eu imaginava que se tratava de uma história cliché e mal estruturada, agora, depois da leitura, posso dizer que entrou para a lista dos meus livros favoritos, o que não acontece com frequência em se tratando de livros que misturam esses gêneros.


A narrativa não segue um padrão cronológico retilíneo, mas altera entre as perspectivas das duas personagens centrais com trechos de blog, mensagens e e-mails. E não é spoiler se eu disser que a personagem Amelia morre, mas de forma brilhante e muito bem colocada pela escritora, ela continua presente, de modo que cada página seja devorada ferozmente pelo leitor, porque, sendo sincera, não há como largar esse livro. Cada página é revolta em mistério e muita comoção.

O enredo é intrigante, sobre uma mãe desesperada e eventualmente se sentindo culpada pela morte da própria filha, que a princípio teve a morte decretada pelo médico legista como sendo suicídio. Kate, uma mulher bem-sucedida, advogada em uma firma reconhecida e com tão pouco tempo para sua única filha, mas que mesmo assim nunca a havia deixado de amar. E isso era mútuo entre as duas.

 Então, Kate começa a se questionar sobre o que de fato tinha acontecido com Amelia. Como poderia sua linda, inteligente e dedicada filha decidir terminar com a própria vida? Agora, Kate e o tenente de polícia reabrem o caso e fazem investigações mais apuradas sobre o que acontecera. Cada vez mais envolvida a mãe se via na vida e nas decisões que hipoteticamente  haviam levado Amélia para aquele trágico fim, mais circundada em segredos Kate se encontrava. Segredos estes que existiam em ambos os lados.

Já Amélia tinha 15 anos, estudante do 2º ano do colegial em uma escola exclusiva, o Grace Hall, aluna e filha exemplar, amante da escritora Virgínia Woolf e, por causa da sempre ausência da mãe em razão do emprego, um pouco solitária. A melhor amiga dela era a Sylvia, mas, apesar de as duas estarem juntas a maior parte do tempo, isso raramente acontecia quando Sylvia estava em relacionamentos. Em um dia, Amélia é convidada para se juntar à um clube secreto, o Magpies, em que as garotas usavam codinomes para se referirem umas às outras. Embora tenha jurado para Sylvia que jamais entraria em um desses clubes sem que as duas fossem convidadas,  Amelia acaba cedendo ao convite.

Reconstruindo Amélia é um livro inteligentíssimo, sem dúvidas. Ele consegue prender a atenção de quem o lê e cumpre muito bem o papel de emocionar, cativar e surpreender. É incrível como a escritora soube colocar cada coisa em seu devido lugar, tudo minuciosamente calculado e pensado. Uma história que deve ser relida, para que as entrelinhas sejam captadas e compreendidas. Eu recomendo muitíssimo a leitura.

Tenho raízes, mas flutuo.  Virginia Woolf

Kimberly McCreight se formou em direito com honras. Após trabalhar em algumas das melhores firmas de advocacia de NY, ela largou o direito e foi escrever. Mora no Park Slope, no Brooklyn, com o marido e as duas filhas.




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