Páginas

6 de mai de 2017

batom


Eu passei o batom
coloquei um vestido
mas eu não vou sair
não hoje.
Hoje eu fico aqui,
como quase todos os dias.
Eu me pergunto se sou uma má pessoa
se sou desagradável
e ninguém gosta de mim.
Mas como saberei? Ninguém nunca disse nada
O que há de errado comigo?
Nunca sei o que dizer às pessoas,
e acabo dizendo as coisas erradas,
afastando-as.
E eu não quero afastá-las, eu juro!
Eu as quero perto de mim
Especialmente ele.
Ele, quem eu nunca tive a oportunidade de realmente conhecer.
Ah, como eu desejo conhecê-lo!
Como eu desejo que ele fosse meu amigo,
como eu desejo que alguém fosse meu amigo.
De verdade, por eu ser uma boa pessoa,
não por terem que me aturar.
Dizem que eu sou estranha
e eu começo a acreditar que sou mesmo.
Dizem que eu sou louca,
acredito também.
Dizem que a gente tem que se amar
e que quem gostar da gente, vai gostar exatamente da forma que somos.
Mas como você se ama quando todos te mostram que você não é uma pessoa amável?
Não me ensinaram a me amar, mas eu te amo.
Eu sei que é amor porque continuo te desejando o bem.


Mas será que é mesmo?
Ou seria só falta de alguém amigo, de um ombro confiável?
Ah, a falta disso, de família e amigos, com certeza é capaz de destruir até o mais valente dos homens
E disso eu sei bem, ah, se sei.
Meu coração está em frangalhos
porque necessito falar com alguém
preciso de alguém.
Que me escute, que não me julgue
Ninguém sabe o que eu passei
e o quanto estou sendo guerreira.
Ah, eu estou sim!
Eu resisti até aqui.
Jesus! Cade você?
Odin, Alah!
Eu preciso de um amigo.

Eu descobri que não sou uma pessoa depressiva.
Sou uma pessoa como outra qualquer.
Os meus picos de tristeza, quase diários, se devem ao fato de me sentir só.
Sim, só! De amigos, de família!
Nenhum ser humano é uma ilha!
Parte razão, a outra, emoção pura.
Que molha meu rosto
e aperta meu coração.
Dói, ah, como dói!
Eu tenho medo de ser uma pessoa desagradável,
eu juro, não quero ser!
Quero que gostem de mim, por favor.
Me ajudem.
Eu tô batalhando tanto pra continuar aqui.

Hoje eu passei o batom
e botei o vestido
mas eu não vou sair.

20 de abr de 2017

Drogas


Algumas pessoas são viciadas em heroína
outras, em álcool (é uma droga sim, só que mais aceita socialmente).
Umas, em pó
Outras, em marijuana.
Tem aquelas, ainda, que são viciadas em açúcar
Imaginem só, açúcar também é viciante!
Tem umas que adoram um lança-perfume
e há as que gostam de bala e doces,
mas não são aqueles que compramos em docerias!
Algumas adoram um café,
quentinho, forte!
Há milhares de tipos de drogas,
inclusive aquelas que são compradas nas farmácias.
E há inúmeros tipos de drogados,
mas os tipos que eu mais gosto
são aqueles que se drogam de amor.
A moça do supermercado que me deu um vale-transporte e me ajudou a fazer as compras (Carol o nome dela) era drogada de amor.
O moço que me deu carona e me trouxe na porta de casa também era.
Aqueles homens e mulheres que diariamente me desejam um "bom dia"
mesmo sem me conhecer, mesmo sem eu os conhecê-los,
são drogados de amor.
O mundo está drogado! Mas existe amor, até mesmo nas pequenas ações, nos pequenos gestos. Algumas pessoas não o veem porque estão drogadas de ódio. E ah!, como há ódio nesse mundo também.

6 de abr de 2017

Densidade


A química diz que quanto maior for a divisão da massa de um material
pelo volume que ele ocupa, maior é a sua densidade.
Isso explica porque o óleo não se mistura com a água, ou o mercúrio com o leite,
ou esses quatro juntos, formando, assim, camadas bem definidas desses quatro materiais.
A densidade de cada um difere da do outro, certo?
Mas eu acho que a química não consegue abranger toda a verdade,
principalmente a que diz respeito aos mais profundos sentimentos humanos.
A minha tristeza, que é tão pesada, tão densa,
não consegue formar camadas com os outros sentimentos bons que vivem em mim.
Pelo contrário, ela se mistura à eles. E está se misturando tanto com a minha alegria, meu ânimo, minha paixão e minha gratidão, a ponto de eu conseguir enxergar o mundo somente em tons de cinza.

11 de fev de 2017

Uma carta para o AMOR

Me diz quem é você e o que você quer, por favor. Estou cansada de ser usada por você e ver as pessoas serem usadas também. Você sempre chega devagar como um vento no rosto, traz uma sensação de paz, uma sensação de que tudo pode dar certo. Eu fui percebendo que você habitava em mim quando eu me perdia em pensamentos e me via sorrindo do nada, aquele sorriso mais bobo, sabe? Quando eu não mais queria ficar sozinha, queria ter um ombro como travesseiro para as maratonas de Breaking Bad, queria um som de uma risada para se juntar a minha, queria ter companhia para ler O Alquimista, queria ter uma mão para enlaçar a minha. Mas a sensação de paz foi só no começo. Por isso que eu não entendo você. A história se repete todos os dias, você chega, transforma nossa vida, e simplesmente vai embora do nada, largando choros e ranger de dentes por onde passa. Eu nunca entendi porque você tem um fim. Não seria mais bonito que você não nos abandonasse? Pense em quantas crianças teriam tido uma bela infância se você não tivesse ido embora da vida dos pais delas? Pense em quantas pessoas hoje não estariam com uma família linda, se você não tivesse ido embora antes de elas construírem uma? Pensa em quantos jovens poderiam ter tido o privilégio de te conhecer antes de partir, se você não fosse tão egoísta e só se apresentasse para aqueles que se dizem sortudos? Eu simplesmente não te entendo. Como você pode fazer tanto bem e tanto mal ao mesmo tempo? Ok, tudo bem, se você quer partir, pode ir. Mas por que não pode deixar nossa vida como estava antes de você chegar? Você é como a guerra né. Somos uma pessoa antes de você chegar e quando vai embora só deixa pedaços e jamais voltamos a nossa forma original. Porque a nossa alma foi mudada, porque alguém fez parte dela por um tempo, e essa pessoa deixou uma marca. E vai ser sempre assim, vai passar séculos e você vai continuar a trabalhar dessa forma.

              

20 de nov de 2016

Penhasco


Eu não posso viver uma vida assim,
não posso.
Essas oscilações entre estar bem
e estar a beira de um penhasco
dolorida, chorosa, desesperada, lixo
Suicida.

Não posso continuar assim
chorando repentinamente.
Uma hora, menina
outra hora, suicida.

Não dá pra viver assim.
O penhasco sou eu,
o desejo sou eu,
e estou caindo em mim mesma
descendo, tão profundamente
que não dá mais para voltar
não dá para segurar.

Eu pularia, ah, como eu pularia!
Eu pularia sim.
Não porque eu quero,
porque eu preciso.

Mas o medo da dor,
não a mental, a física,
esse medo é o obstáculo no caminho
que impede que eu atinja o fim.

Mas eu sei que eu preciso,
eu preciso partir.
Eu não sinto que aqui é o meu lar,
eu não tenho um lar.
Eu não sinto que você é a mesma,
você é outra.
Eu não tenho nada a perder.



6 de jul de 2016

Ela esperou demais


Você já reparou que toda a sua vida é regida por padrões e obrigações que o mundo lhe impõe?
Você nasce e já aos quatro anos é obrigado a ir para escola. Aí se passam treze anos e você se acha o máximo porque conseguiu a tão sonhada vaga em uma federal. Nesse meio tempo, aconteceu muitas coisas, seus pais se separaram ou moram juntos, mas nem conversam um com o outro. Muitos de seus colegas se perderam, outros foram embora e tantos mais não tiveram o luxo de chegar até aqui. Resolveram desembarcar no meio do caminho. Ok. Faculdade, quantos anos? Quatro, cinco ou seis. Ufa! TCC aprovado. Estou livre. Merd@ de curso que não consigo arranjar emprego. Aleluia! Dois anos e finalmente passei no concurso. Preciso ter minha casa e meu carro. Não, espera. Preciso casar. Mas tá difícil! Não existe ninguém que presta. Preciso arranjar alguém, não suporto a crise dos trinta. Vivaaaaa, estou casada, tenho um ótimo emprego, um bom companheiro e as crianças estão crescendo. Que orgulho, meus dois filhos formados. Ainda bem que a separação não afetou o estudo deles.
Hoje, já aposentada, sentada em sua cadeira de balanço, vendo seus netos brincarem no jardim ela se sente indiferente. Não sabe o que aconteceu. Houve alguma parte desse caminho em que se perdeu. Não sabe bem onde foi. Afinal, não era para ela se sentir realizada? Tem tudo que sempre sonhou. Tudo o que idealizou. Mas tudo o que sente é um vazio. Um nó na garganta. Como se tudo o que viveu tivesse sido apagado e restou apenas o arrependimento. Não arrependimento pelo que fez, mas pelo que deixou de fazer.
Ela se lembra que quando era jovem, queria sair dessa cidade, conhecer o mundo. Viver muitos amores. Mas isso não aconteceu. O comodismo a cegou. A ambição por bens materiais a quebrou. O dinheiro e o poder consumiram sua alma. Ela estava quebrada, e não sabia o motivo. Bem na verdade, ela sabia uma parte dele. A vida. A vida a havia quebrado. Suas escolhas a havia quebrado. Despedaçado. Feito em milhões de pedaços. Toda a sua vida foi uma grande mentira. Ela acreditava em algo impossível. Hoje, convive com os fantasmas do passado. Com os fantasmas dos e se? Com os fantasmas dos deveria ter feito isso, ou aquilo.
Ela percebeu, já tarde, que demorou demais para fazer o que precisava ser feito. Esperou demais para ler os livros, ouvir as músicas e conhecer pessoas que mudariam sua maneira de ver o mundo. Esperou demais para ser mãe de seus filhos pequenos. Esperou demais para amar e dizer eu te amo. Esperou demais para rir de si mesma. Esperou demais para ver que o futuro é uma grande ilusão. Esperou demais para sentir a vida. Esperou demais para viver o agora.  E de tanto esperar, acabou que chegou a vez dela desembarcar. Enfim, sua espera havia terminado. 



29 de mai de 2016

Resenha - Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex


O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória. Prefácio, Eliane Brum

Você sabia que no Brasil também existiu um holocausto? Quase exatamente igual ao holocausto judeu, exceto por um detalhe mínimo. Aqui, em Minas Gerais, mais precisamente Barbacena, no século XX, mais de 60 mil pessoas morreram. Só que essas pessoas não eram judias: eram esquizofrênicas, epiléticas, homossexuais, garotas que haviam perdido a virgindade antes do casamento, meninas que haviam pedido ao pai uma distribuição justa da renda, os desafetos, etc. Muito mais do que isso: o Colônia, como era chamado o maior manicômio do Brasil, era um depósito de lixo humano, sendo a maioria de seus internos, pessoas pobres e sem condição nenhuma de se tornarem produtivas na sociedade.


Agora que eu já fiz uma apresentação básica do que foi o hospital de Barbacena, devo admitir que, como brasileira e mineira, eu não conhecia essa história. Apaixonada por ficção, tudo que eu desejava enquanto lia esse livro-reportagem escrito pela juizforense Daniela Arbex, formada em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 95, era que tudo não passasse de ficção. Mas não é ficção, infelizmente. Na medida em que eu passava as páginas, meus olhos se enchiam de lágrimas e eu me perguntava como foi possível que tamanha crueldade estivesse acontecendo dentro daqueles muros do Colônia e o Estado continuasse inerte em relação à qualquer proposta de mudança. O psiquiatra Ronaldo Simões Coelho foi uma das primeiras pessoas a denunciar o Colônia, mas, ao fazê-lo, acabou perdendo o emprego na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).

Para você que ainda não sabe, vamos começar primeiro com a maneira como os internos eram tratados - destratados fica melhor - (caso ainda não tenha lido o livro, aconselho arrumar um pdf pra ter uma visão mais aprofundada sobre esse massacre ). Bem resumidamente, as pessoas dormiam em capins que eram empilhados nos corredores, andavam nuas no frio cortante de Barbacena, bebiam água diretamente de um esgoto que cortava o pavilhão do hospital, se alimentavam de forma precária e desumana (tanto que em uma parte do livro, um dos visitantes pergunta à um cozinheiro do hospital se eles criavam porcos ali, ao ver como a "comida" era preparada. O visitante era o formando em Medicina na época, Francisco Paes Barreto, que também se rebelou contra a desumanidade de Barbacena). Não posso deixar de citar os abusos físicos e psicológicos que eram investidos nos internos como forma de castigo. Por último, a lobotomia e os eletrochoques. No livro, inclusive, são narrados episódios onde pacientes morriam de parada cardíaca ao receberem eletrochoques, sendo estes, aplicados deliberadamente.


Nesse livro da Daniela, ela relata o descaso humano que acontecia em Barbacena com relatos de alguns dos sobreviventes do hospital, além de psiquiatras, jornalistas e ex-funcionários que testemunharam a rotina do que foi o maior depósito dos indesejados sociais aqui no Brasil. Com uma escrita fácil de entender, e muitas vezes tocante, a jornalista desmiúça a história do manicômio de Barbacena que tirou a identidade, a dignidade e a vida de inúmeras pessoas.

 Pra vocês terem uma ideia, eu acredito que demoraria um tempo bem grande pra realmente ler esse material se não fosse a faculdade. Em uma palestra e, posteriormente, em sugestões de livros-reportagem para um trabalho que nós vamos fazer, esse livro entrou em pauta. Mas foi na palestra que tive o primeiro contato com essa história. Lá, conheci o Iago Rezende e o Fred Furtado, dois palestrantes que nos apresentaram o projeto Loucos são: direito de voz. Maravilhoso!

Abaixo, o documentário do cineasta Helvecio Ratton sobre o Hospital Colônia de Barbacena. Obs.: ele optou por não colocar trilha sonora, mas deixar os sons do ambiente. 

(Agora que eu já cumpri essa obrigação de apresentar um pouco o livro para os que ainda não o conhecem, posso ler o Um beijo de morte). Beijos!

LEIAM O LIVRO



Minha avaliação (numa escala de 1 até 5 estrelas)

 Mapa Literário